Saturday, July 29, 2006

Como não?

Ele chegou tarde em casa. A cabeça doendo, de tanto pensar. Afinal, o que havia acontecido? Por que ele tinha feito aquilo? Ainda não sabia direito...

Começou quando saiu do trabalho. Eram seis da tarde, uma sexta-feira chuvosa. O frio não incomodava mais que o barulho incessante dos carros na via expressa onde ele se encontrava. Atravessou-a, olhando cuidadosamente para os lados. Não queria morrer. Não naquela hora. Andando vagarosamente pela calçada, as luzes de sódio já acesas, ele sentiu vontade de seguir em frente. Sabia que tinha que virar à direita na próxima rua, mas não o fez. Não sabia o que o impelia a fazer aquilo, e quis dar vazão ao que estava sentindo. Pela primeira vez em anos, quis experimentar aquela sensação que vinha tendo há bastante tempo. Não podia descrevê-la corretamente, talvez por estar embriagado dela. Mas se pudesse com certeza diria que se trata de uma sensação incômoda, paradoxal, de liberdade aprisionadora. Era adulto, e no entanto sentia-se impotente para várias coisas. Sentia-se mais que impotente: sentia-se sufocado. Como se estivessem inundando seu cérebro, e ele não conseguisse encontrar a torneira pra fechá-la.

Desde sempre, quis dar ênfase ao que sentia. Achava que isso era o melhor a ser feito, e que no fundo tinha sido pra isso que o homem adquirira consciência durante sua evolução. Não pensava, entretanto, que essa opinião não era compartilhada por muitos outros. Não achava também que essa heterogeneidade o fizesse tão mal. Nunca soube lidar com opostos, nunca soube entendê-los. Era bonito ouvir sobre compreensão, mas quando não se era compreendido não se tinha vontade de dar compreensão. E ele, que sempre tinha dado, não queria mais. Cansava sua mente, cansava seu coração. A intensidade com que fizera isso nos últimos tempos tinha exaurido todas as suas forças, não obstante seus constantes esforços para continuar.

Ele andou. Visitou lugares que nunca conhecera daquela cidada à qual nunca pertencera. A mente trabalhando incessantemente, num ritmo irredutível, numa freqüência assustadora. Parecia que tudo estava acontecendo naquele momento; fatos de anos atrás revividos dentro de sua cabeça e seu coração. Não viu ninguém enquanto caminhava. Apesar de seus olhos ainda estarem no mesmo lugar, seu olhar tinha mudado de direção. Olhava pra dentro, examinava-o como nunca houvera feito, e talvez nunca o faria novamente. No fim da noite, estava cansado. E sabe-se lá como, foi parar na porta de casa.

Ao abrir a porta, não se reconheceu mais. Não reconhecia aquele que tinha sido seu lugar desde que tinha saído da casa dos pais. Suas coisas, suas manias, sua falsa organização, tudo já não fazia mais sentido. Tudo parecia ter feito parte de outra vida, outra encarnação na qual ele fora... ele mesmo. As cinzas que compunham seu espírito transformaram-se em fênix. Ou seria a fênix que tinha se transformado em cinzas? Não sabia responder. Mal sabia dizer quem era, ou de onde viera, ou pra onde iria. Mas ele sabia o que queria. Ahh, isso sim, isso ele sabia! Queria andar mais. Fechou a porta, e saiu novamente.

Friday, July 28, 2006

Since I've been...

Campinas, 28 de julho de 2006

Olá Sérgio,

Como vão as coisas? Espero que bem. Não há nada de errado no que está acontecendo, conforme conversamos. Pode parecer que não, mas as coisas já estão bem melhores do que estavam há um tempo atrás. Não sei dizer o quanto melhores, mas quem precisa de medida pra essas coisas? Basta ver que elas estão melhorando mesmo.

Aqui desse lado, elas continuam as mesmas. E isso, incrivelmente, também significa que elas estão boas! Acredite se quiser, mas tem bastante tempo que eu não penso e nem faço coisas ruins pra mim. Desde aquela época (você sabe muito bem, não preciso explicar qual) que eu parei com isso. Aprendi, amadureci, ou sei lá que raios foi que aconteceu. Só sei que as coisas ficaram desse jeito. Não posso dizer se vão continuar; ninguém nunca pode prever algo assim. Mas posso garantir que vou fazer o possível pra que o período das "vacas magras" não volte mais.

Sei, muito bem diga-se de passagem, o que está acontecendo aí. As coisas parecem estar desmoronando, não é? Aliás, correção: você parece estar desmoronando né? Certo, certo... Mas lembre-se do que você disse um dia (pra você-sabe-quem): elas estão apenas se reconstruindo, de outra forma e com outras formas. Sim! Acredite quando eu digo que nunca foi fácil fazer isso (você se lembra de quando aconteceu comigo, desse lado), mas você sabe muito bem, melhor do que ninguém, o que isso vai trazer. Se é verdade que antes da tempestade vem a calmaria, também é verdade que depois dela vem o clima agradável e o sol. As nuvens, apesar de carregadas, já estão passando. E você, que no fundo só queria dar certo, vai conseguir.

Não sei o que se passa agora. A gente quer prever e predizer tudo o que vai acontecer nas nossas vidas, e eu queria muito fazer isso agora. Queria poder falar exatamente o que vai ser daqui pra frente, e como vai ser. Mas vou me contentar em esperar, sabendo que tudo vai dar certo. Não há bem que não se acabe, nem mal que sempre dure, já dizia sua avó. Não se machuque, por favor.

Cuide-se bem. Você sabe fazer isso melhor do que ninguém, e agora precisa fazê-lo. Por mim e por você.

Abraços,

Sérgio.

Thursday, July 27, 2006

Notícias de hoje

Tempo frio. Totalmente e imparcialmente frio. Pancadas e mais pancadas de chuvas, com direito a neblina, neve e tudo o mais. Sem dúvida, um dos piores temporais já enfrentados. Furacões, tornados e ciclones à vista e a prazo. Sem direito a reclamações posteriores...

Mas é claro, estou saindo de férias. Minha volta é indefinida, e talvez nunca ocorra. Pra que voltar, afinal? Temos terras novas a explorar! Novos ares pra respirar, que já foram respirados uma vez, mas nem tem problema... As novidades se fazem com as coisas mais conhecidas. E as coisas mais conhecidas, quem diria, tornam-se novas a cada dia. Felizmente, ou infelizmente. Descobre-se que não se conhece a coisa conhecida, e supostamente aquilo que era suposto não acontece nem na suposição. Há superposição de pancadas. Há pessoas ficando fortes, há pessoas enfraquecendo. Ahh... Vá ler outro blog.

Wednesday, July 26, 2006

Não pode ser impossível!

Como convecer alguém? Como dizer que a pessoa está indo por um caminho que pode não ser o melhor? E mais: como dizer que você talvez (e muito provavelmente!) saiba um caminho melhor que aquele?? E como pegá-la no colo, não deixar que se machuque, proteger até o fim dos tempos ou até quando sobrarem forças pra isso?

Não me ensinem nada. Não quero aprender. Não quero mais aprender a sofrer, entenderam? Não é assim que vão me colocar junto de vocês; não é assim que o mundo vai girar de um jeito mais normal, se é que há algo de normal nisso... Por quê?? Por que fazer isso? Por que me pegar pela mão, por que fazer com que eu me sinta incapaz? Eu sou capaz! E se não for, deixe que eu aprendo! Não quero mais ouvir "sim", e não quero mais ouvir "não". A mim, eles soam a mesma coisa... Não quero ver, não quero... E o que há além de ver? Vim ver? Viver? Vem ver... Venha ver o que há pra ser ouvido, ouvir o que quer ver, e admirar o inalienável. Todos, ouviu bem, TODOS bebemos da taça da loucura. Todos temos a vida, e todos não vivemos nem um pouco. Incomoda? Não. Nem um pouco. Parem de me julgar. Não quero ser julgado. Não quero ser tomado como exemplo. O exemplo é criado e destruído por vocês. Aqueles que tudo vêem. Aqueles que tudo sentem. E tudo sabem. Vox populi, Vox Dei. Não quero mais saber.

Agora deixe-me sair. O amor à porta bate. Vou atendê-lo. E quando atendê-lo, você vai deixar de existir. Ouviu bem? E quando isso acontecer, quando isso finalmente acontecer... Nos veremos de novo.

How I wish... You were here.

Monday, July 24, 2006

Sem querer

É tudo sem querer. E sem querer, se quer. Não há explicação para os fatos que busco, e não há fatos que explicam o que quero. Esse heterogêneo paradoxalmente oposto me mantém vivo hoje. Não sei o que querer. Não sei se quero querer. O não-saber, a imutabilidade das coisas diante dessa mudança constante que é a vida, isso tudo me deixa desse jeito. Se me quer, me quer. Assim como "bem me quer", ou "mal me quer". Não adianta... Não adianta esperar por isso. O convencimento me assusta, mas vem aos poucos, me deixando encabulado, me deixando desanimado.

Sei que não é fácil. Nunca é. E ninguém disse que seria. Se dissesse, estaria mentindo com todas as forças. Mas mesmo assim, a tentativa é necessária. Ela se fez necessária desde que ficamos assim, parecidos. Quase-irmãos, diria alguém... Mas ninguém diz. Ninguém quer se manifestar, e que ninguém se manifeste. Justamente aquilo que precisamos é que ninguém se manifeste. Talvez as coisas fiquem mais fáceis assim; talvez nem tenhamos que sofrer tanto por algo que não merece sofrimento. E mesmo sem merecer, o sofrimento fica aqui, atormentando, atormentado. Que atire a primeira pedra aquele que nunca passou por isso. Que atire duas, três, quatro pedras! Mas que saiba que o amor fez parte da minha vida. E que fará, não obstante o sofrimento venha de brinde. E que aquilo que escreverem na lápide do outro, escrevam na minha. Foi poeta, e amou em vida.

Não quero, não quis e não vou querer terminar aqui. Não é assim que se termina. Não é terminando, ouviu? Não é terminando! E se as coisas estão boas, por que piorar? Por que queremos e precisamos e não conseguimos viver sem piorar? Só pelo desafio de ter... ter mais algo contra o que lutar? Só pra se sentir bem (ou mal)? Buscando o inalcançável, ela foi. Não sei se vai encontrar. Não quero saber. Por hoje chega.

Saturday, July 22, 2006

Há de se convir...

Ela disse "Não tenha medo". E eu não tive. Ainda não tenho, pra dizer a verdade. Fiquei vagando ao seu redor, preso em sua gravidade e atraído por tudo aquilo que vejo. Ouvindo o infinito se aproximar, eu quero que ele se aproxime. "Não, não", eu digo a ela, "isso não é nome de vilã!". E ela acredita, presa em tentáculos maiores que ela mesma. E ela já é grande; talvez a maior. O maior está em seu nome, apesar de o menor também estar. E não só nele.

Nesse emaranhado de cosmos, eu me deixo levar. Indo a lugares nunca antes explorados, navegando pelo nada, mas tendo tudo aquilo que preciso. Ao alcance de uma mão, de um olhar. Ahh, os olhares... Aqueles dois pontos luminosos em sua face, que passam calma, tranqüilidade, conforto. Você olha, e pensa que Deus existe. Pensa que só ali ele pode existir. Ali é o lugar dele, e ele fez aquele lugar pra ele descansar. No fundo dos olhos dela, jaz o paraíso. Deus me deixou entrar, me deixou ficar. É assim que me sinto.

Diante disso, não sei como me portar. Talvez suas seis estrelas me deixem sabê-lo, mais tarde. Ela não precisa me dar nada. Ela não vai conseguir me dar nada. Simplesmente porque já me deu tudo.

Eu.

Wednesday, July 19, 2006

In constante

Produção de sentimentos, produção de letras e palavras, e frases que por mais sentido que façam, não dizem nada. Por fora, um grande. Conhecedor de sete (talvez oito) mares, conversa que apetece quem a ouve. Palavras, apenas palavras... Coisas inanimadas que nos animam totalmente. Ou não...

Dentro de tudo, um grande labirinto. Um grande jogo, uma grande peça sendo encenada, e a espera para estrear, para ser chamado e finalmente resolver o que tiver que ser resolvido. Ele, obviamente, não leu o script. Simplesmente por não haver um. E esse fato, que devia deixá-lo preocupado, não faz a menor diferença agora. Ele sabe que scripts são feitos para não serem seguidos, e que a improvisação é exigida numa hora dessas. Então ele senta, e espera. Improvisação, talvez ele consiga fazer. E isso, isso é o importante. O resto, o caminho nos traz.

Até.

Sunday, July 16, 2006

O que acontece?

Acho que já usei esse título. Mesmo assim, não importa. O importante é escrever, agora. Escrever pra não morrer, ou morrer escrevendo. Também não importa.

Cinco pras quatro da manhã, olho no relógio. Sei que estou num quarto, mas isso fisicamente. E não sei por que, mas o físico não interessa mais nesse momento. O físico é só o físico, afinal. E onde estou, realmente? Onde é que fui parar, parado ali? Não entendo, apenas olho o relógio. O andar intermitente do ponteiro me faz sentir bem. Sei que ali dentro do relógio, pelo menos, as coisas não mudaram. O tempo continua passando, do mesmo jeito que sempre passou e vai passar. Procuro então me refugiar nesse maquinário inventado pelo homem pra mensurar o imensurável. Fico olhando, na expectativa de que o ponteiro comece a voltar, a fazer movimentos aleatórios, a não obedecer regras nem físicas modernas. Mas não, ele não faz isso. Viro a cabeça, volto a dormir. Finalmente, alguém respira no quarto...

Uma premonição tem estado sempre presente, já faz algum tempo. Não consegui ainda descobrir o que é, apesar de ter alguns palpites. Sinto, inegavelmente, que algo irá ocorrer (os mais céticos vão dizer que algo SEMPRE ocorre a toda hora... Bem, danem-se os mais céticos). Tenho passado dias e dias esperando, mesmo sem saber o que esperar. Não consigo sequer dizer se é bom ou ruim, se vai melhorar ou piorar algo. Simplesmente vai acontecer. E isso eu não posso (e por que ia querer?) evitar.

Até.

Monday, July 10, 2006

I, myself and the emptyness

Vazio. Como pode? Como é possível um dia, vinte e quatro horas e algumas pessoas fazerem isso? Como esse vazio pode ser tão grande, e tão cheio de... nada. Esse nada, essa síntese do não-ser, essa vontade de não-vir-a-ser.

Deixem de lado essas coisas. Como eu posso me submeter a isso? Tenho certeza de que não quero, mas como isso vem? A certeza existe, não existe? Não? Não sabe? Como assim??? A idéia fixa na cabeça é um pássaro voando. E isso veio agora, e isso vem mais vezes, e quando vem eu não sei o que fazer. E quando vai, pra onde vai? Vai salvar alguém? Meu salvador falta. Faltou. Não veio, e eu não fui. E nesse toma-lá-dá-cá, nessa fusão de hífens separados, eu fico na mesóclise. Sim, entender-me-iam caso soubessem o que eu sei. E se nem eu sei o que eu sei, pra quem é que eu vou contar? Pra vida, sempre ela?

O verbo é esse. Passados mil anos, não vai mudar. Não há motivo, não há explicação. Ninguém escolhe verbalizar. Ninguém, e ninguém vai bem, obrigado por perguntar. Quero ser orador, quero paraninfar, quer orar pelo universo numa casca de noz. Nós, que aqui estamos e por vós esperamos... Nós, que mecânicos e larângicos, Lagrange e grande. Nós, vós, eu, tu e eles. Derive a integral, chegue a lugar algum lugar algum lugar, e integre-se nos confins do universo. Tudo é uma grande roda, viva. E vivo eu me mantenho. Vomitando impropérios contra essa tela cheia de pixels.

Sunday, July 09, 2006

Entre, por favor

Ela saiu cedo. Nas mãos, não tinha nada que a fizesse sequer pensar em voltar. Era a última vez que ela havia saído, e sabia disso. Não pretendia, não fazia questão de pensar em nada. Logo pensar, que fora uma constante em sua vida, agora não fazia mais parte de suas ações. Mas o problema, o grande problema, é o que está por vir.

Sem pensar, mas sem se deixar levar, as coisas ficaram frias. E a frieza transformou-se em rotina. No fundo, desde o início ela o havia alertado: vai ser assim. E ele, do fundo de sua ignorância, escolheu mais uma vez acreditar que não, que aquilo era um alarme falso, que aquele aviso na verdade não iria se concretizar. Mas fez-se, e aquilo de que tinha mais medo aconteceu: também ele, outrora o oposto, tornava-se cada vez mais pensante. Logo pensar, aquilo que ele nunca procurou tornar constante, estava ali agora. E o amor é fogo, que arde sem se ver? Não. Pra ele ardia, e ardia, e ardia... E ele via. O problema, pensava (novamente) ele, era deixar de arder. Isso, infelizmente ele também via...

E pensar que tudo começou... pensando.

Tuesday, July 04, 2006

Acorde pra vida

Caí em mim. Caí faz tempo, e caí com força. Sem dúvida, isso me fez acordar. E o acorde, outrora escondido, revelou-se... O acorde pra vida, o que faz acordar. O que faz pensar, sem pestanejar, que as coisas são feitas por alguém além de tudo e de todos. É impossível não sentir uma presença superior nisso. É impossível não sentir, simplesmente. E se sentir é inevitável, e ser inevitável é tudo o que ele pode e sabe ser, então que venha! Que venha, e que faça bem. Que venha, com vontade de rir e chorar, de respirar e se afogar, em alegrias e lágrimas. Mas que venha...

A cabeça? Está aqui. O coração? No mar... E o acorde? E. Maior-que-tudo.

Sunday, July 02, 2006

Efeitos diversos

Há uma tela em branco na minha frente. Há várias telas em branco aqui dentro. Cada qual esperando ser preenchida. Cada qual esperando pelo lápis, pela caneta, ou por qualquer coisa que escreva e deixe marcas. Taí... Deixar marcas. Isso é algo que (é) preciso.

Quando comecei, nem sabia por onde andar. Também não sabia pra onde andar. Mas aí ela veio, e me disse pra andar, e simplesmente andar. Sem se preocupar com nada, sem ao menos me perguntar se estou indo pro caminho certo, ou se é o caminho que está vindo. Afinal, o fato de empurrarmos o planeta quando andamos pode querer dizer mais do que "seguir em frente". O ato de empurrar pode muito bem ser encarado como o ato de puxar. E puxar é o que eu tenho feito. Tanto ar pr'os pulmões, quanto terra pr'os pés. Falta puxar felicidade pra vida. Mas isso... Isso é outra história.

Até.