Como não?
Ele chegou tarde em casa. A cabeça doendo, de tanto pensar. Afinal, o que havia acontecido? Por que ele tinha feito aquilo? Ainda não sabia direito...
Começou quando saiu do trabalho. Eram seis da tarde, uma sexta-feira chuvosa. O frio não incomodava mais que o barulho incessante dos carros na via expressa onde ele se encontrava. Atravessou-a, olhando cuidadosamente para os lados. Não queria morrer. Não naquela hora. Andando vagarosamente pela calçada, as luzes de sódio já acesas, ele sentiu vontade de seguir em frente. Sabia que tinha que virar à direita na próxima rua, mas não o fez. Não sabia o que o impelia a fazer aquilo, e quis dar vazão ao que estava sentindo. Pela primeira vez em anos, quis experimentar aquela sensação que vinha tendo há bastante tempo. Não podia descrevê-la corretamente, talvez por estar embriagado dela. Mas se pudesse com certeza diria que se trata de uma sensação incômoda, paradoxal, de liberdade aprisionadora. Era adulto, e no entanto sentia-se impotente para várias coisas. Sentia-se mais que impotente: sentia-se sufocado. Como se estivessem inundando seu cérebro, e ele não conseguisse encontrar a torneira pra fechá-la.
Desde sempre, quis dar ênfase ao que sentia. Achava que isso era o melhor a ser feito, e que no fundo tinha sido pra isso que o homem adquirira consciência durante sua evolução. Não pensava, entretanto, que essa opinião não era compartilhada por muitos outros. Não achava também que essa heterogeneidade o fizesse tão mal. Nunca soube lidar com opostos, nunca soube entendê-los. Era bonito ouvir sobre compreensão, mas quando não se era compreendido não se tinha vontade de dar compreensão. E ele, que sempre tinha dado, não queria mais. Cansava sua mente, cansava seu coração. A intensidade com que fizera isso nos últimos tempos tinha exaurido todas as suas forças, não obstante seus constantes esforços para continuar.
Ele andou. Visitou lugares que nunca conhecera daquela cidada à qual nunca pertencera. A mente trabalhando incessantemente, num ritmo irredutível, numa freqüência assustadora. Parecia que tudo estava acontecendo naquele momento; fatos de anos atrás revividos dentro de sua cabeça e seu coração. Não viu ninguém enquanto caminhava. Apesar de seus olhos ainda estarem no mesmo lugar, seu olhar tinha mudado de direção. Olhava pra dentro, examinava-o como nunca houvera feito, e talvez nunca o faria novamente. No fim da noite, estava cansado. E sabe-se lá como, foi parar na porta de casa.
Ao abrir a porta, não se reconheceu mais. Não reconhecia aquele que tinha sido seu lugar desde que tinha saído da casa dos pais. Suas coisas, suas manias, sua falsa organização, tudo já não fazia mais sentido. Tudo parecia ter feito parte de outra vida, outra encarnação na qual ele fora... ele mesmo. As cinzas que compunham seu espírito transformaram-se em fênix. Ou seria a fênix que tinha se transformado em cinzas? Não sabia responder. Mal sabia dizer quem era, ou de onde viera, ou pra onde iria. Mas ele sabia o que queria. Ahh, isso sim, isso ele sabia! Queria andar mais. Fechou a porta, e saiu novamente.
