Quem conta um conto...
Havia chegado o dia. Sim, daqui há algumas horas ele iria se encontrar com ela. Não se sabe onde, mas se sabe por quê. Ahh, isso se sabe muito bem.
Tempos atrás - meses ou anos, não importava naquele momento - tudo corria bem na vida dele. Aliás, correr não corria. A vida estava mesmo era parada, mas pra ele estava bom. O desconhecido assusta, e ele não queria mesmo se assustar naquele momento. Mas não se manda e nem desmanda em nada nesse mundo, ainda mais quanto o assunto é sua própria existência. Aconteceu sem que ele se desse conta. Letras, números, tudo aquilo ganhou forma. E a forma mais improvável que se poderia querer. Foi tomando conta, foi abrindo e ganhando espaço, e tornou-se, simplesmente.
No começo, alertamos acima, ele ficou com medo. Mas quem não ficaria? E quem, depois de conhecer o que era desconhecido até então, não se entregaria? Mas ele foi além. Sentiu, se deu, fechou os olhos, tapou os ouvidos. E foi. Na bagagem, ele levou roupas e um papel. Em branco, pra escrever a vida. A vida que pra ele agora tinha cores, muitas cores. Tinha nome e endereço, e cabelos ruivos. E a vida foi boa naquele momento. As cores se destacaram, e o tempo encurtou. Mais do que ele queria.
Voltando, ele foi novamente. E indo, voltou. E assim foi, até as letras não deixarem mais. Até elas estragarem, derreterem, parecerem números. Frios, e acima de tudo calculistas. E ele leu, releu e leu novamente. Não acreditava, ou não queria acreditar. Talvez por ter fechado os olhos e tapado os ouvidos no começo de tudo... Mas era difícil fingir, ele nunca fora bom nisso. Aliás, nunca fora bom em muitas coisas... Por exemplo, em aceitar erros. E com esse, é claro, não ia ser diferente: foi como estar debaixo d'água, perdendo o fôlego a cada instante, tentando ficar até o último momento. Mas ele nem precisou se preocupar tanto em manter-se lá: retiraram a água antes, e com ela muito mais.
Ligou, inconformado, pra ela. E decidiu ir novamente. Fazia questão de se enganar naquele momento, dizendo que ia tirar tudo a limpo. Claro, sendo o homem o que é, e não sabendo ser de outra maneira, a limpeza não passou de cinco minutos, talvez menos, não mais. Mais cedo do que supunha, já se sentia bem. E voltou. Sabendo que nunca mais ia vê-la. Sabendo que valeu a pena. E pensando que foi bom. Ainda, a folha continuava em branco.

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