Todo dia
Quando ele acorda, já não é mais a mesma coisa. Sempre, desde que tinha ido dormir, havia pensado nos segredos da vida (e principalmente nos amores a ela relacionados), e havia pensado nas coisas que poderia fazer com o que havia pensado antes. Nunca, em momento algum - seja ele propício ou não -, a brilhante conclusão tinha se mostrado.
Naquele dia, porém, era diferente. O que se fazia com tantos sonhos ou divagações, isso ninguém o ensinara. Talvez nem fosse preciso ensinar, assim como não se ensina a andar de bicicleta, ou ninguém ensina a respirar. Profundamente, implicitamente, ele sabia que aquilo tudo não era o que ele queria. Bem, pra falar a verdade, não era o que ele havia querido; o "aquilo" já havia mudado, e mudado bastante. Também ele havia mudado, crescido, se fortalecido, e sentia-se totalmente... outro. O que o fazia sentir assim foi uma sucessão de fatos, lágrimas, sorrisos, mas principalmente aperto. O coração, vítima daquele aperto, não tinha culpa. Nunca tivera. Não se escolhe ser alto, forte, míope, azul ou amarelo. Não se escolhe amar. Não se escolhe ser amado. Não se escolhe sofrer, ou ser sofrido, ou ser feliz ou triste. A questão da escolha é meramente uma questão de escolha. Escolhe-se acreditar que se pode escolher, ou não.
Ouvindo blues, altas horas da madrugada, tendo que trabalhar no outro dia, acordar cedo e seguir as coisas, tudo anda às voltas, aos arredores. Eu vou. Sim, eu vou. E escolho quem vai comigo. Indo ou não, somos dois. Na dúvida, prefiro ser um...
Audaciosamente proferido por mim, numa das noites de insônia.
